Na cozinha, fazendo algumas coisas e cansada de falar pra Aysla qual era o limite dela fiquei pensando e de repente fui bombardeada por ideias e tentei gravar algumas palavras pra não esquecer toda a minha linha de raciocínio.
Agora, ouvindo Chico Buarque e olhando o tempo pela janela
(a tal neblina característica daqui) penso o quão
viciada sou. Sim, tenho que confessar que sou uma viciada de primeira. Viciada de quinta categoria, da pior espécie. Seria capaz de listar isso como um defeito, do qual falo pouco. Muito pouco. Aliás, falo pouco dos meus defeitos. São tão transparentes, visíveis... Sabe a
“segunda pele”? Então! Não vivo sem, assumo.
Sou totalmente frustrada por viver numa sociedade tão mesquinha, transbordando pelos cantos
gente estúpida,
gente hipócrita, e por isso sou
egoísta. Egoísta ao ponto de fazer um pré-julgamento dos gostos de quem admira a Mulher Melancia, por exemplo. Coloquei em um canal esses dias e a vi cantando. Tenho vergonha por ela e por quem deixa uma pessoa daquela, só porque tem 121 cm de bunda, aparecer. É burrice e falta de cultura por centímetro quadrado! Por isso também sou
chata, já que os filhos das minhas amigas têm acesso a esse tipo de porcaria e vulgaridade no meio da semana, às três e meia da tarde. Porque não colocam Chico, Gonzaguinha, Tom, Calcanhotto...? Poderia continuar listando o nome de muita gente que canta música boa
(na verdade acredito que “música boa” é pleonasmo. O que lançam hoje em dia não pode e nem deveria ser considerado como música e nem preciso citar a qualidade).
Também sou
mendiga. E como sou! Sou aquele tipo de pessoa carente ao extremo, que adora alguns mimos. Muita gente já me perguntou
“qual é a graça disso?” – um carinho que adoro e quem vê acha bobo e até um pouco infantil – e eu sempre respondi que
“a graça é o contato físico”. Só tudo isso. Mendigo contato
(“Pechincha de amor; Mas que eu faço tanta questão; Que se tiver precisão; Eu furto”). Sou, me tornei uma pessoa totalmente expansiva que adora o ser humano – qualquer um. Converso com todo mundo, desde o faxineiro até o fulano que é o dono. Pra mim pouco importa qual é o cargo, mas já perdi a conta de quantas vezes ouvi
“ela gosta de conversar com essa velharada chata”. Daí, nesse momento, eu sou
grossa. Fecho a cara e mando a pessoa ir sem mim. Também já perdi a conta de quantas coisas aprendi com pessoas “velhas” e sempre que falo que aprendi com eles me lembro de um casal que conversei uns 15 minutos. Trago comigo até hoje o que aquele senhor, dono dos olhos azuis de sua esposa, me disse. Há meses, talvez anos que eu tive a sorte e o prazer de conversar com ele. Não sei o seu nome, não sei se resistiu bravamente aos problemas de saúde e se conseguiu passar dos seus duros 90 anos e muito menos se continua indo ao baile todas às quartas-feiras, embora saiba que comigo ele sempre estará. Ele e os olhos azuis rasos d’água de sua esposa.
Ah, como eu queria um amor daquele pra mim! Sempre que penso nos dois, naquelas alianças douradas ainda nos dedos, sou extremamente
boba e um pouco
rude. Hoje em dia tudo ficou mais fácil e
“eu te amo” virou
“bom dia”. Todo mundo ama todo mundo e se não ama
“bala nele” (no Rio) ou
“bate nele”. As coisas ficaram muito extremas. A pessoa te conhece em um dia e na semana seguinte já está mandando depoimentos enormes no seu orkut dizendo que já não pode mais viver sem a sua companhia. Ou ainda matam por causa de uma discussão boba. A última que fiquei sabendo foi de uma menina que foi assassinada com três tiros de fuzil por causa de um bate boca que começou na sala de aula por causa de um celular. Nesses momentos eu fico
estarrecida,
estupefata,
perdida quando tento me colocar na situação dessas pessoas que sofreram violências amargas, difíceis de engolir.
Por isso sou uma
ilusão ambulante. Sim, claro! Quem é que quer viver num mundo desses onde o programa medíocre é colocado no horário nobre? Penso no momento feliz e inexplicável de Lewis Carroll ao escrever Alice. Ou então no momento sublime em que Vinicius escreveu sobre a paixão. Quem dera isso tudo pudesse durar
para sempre!
Por isso digo e repito:
sou viciada e gostaria tanto de viciar os que me rodeiam com todos os meus vícios. Os melhores, os mais antigos, os mais melancólicos! Sou viciada em pessoas de bom coração, em música, em amor, paixão, silêncio, em solidão, em tudo que, de alguma maneira, é
puro. O que é belo é um vício a mais, mais um, entre
tantos outros que coleciono.
PS: segundo várias definições vício, do latim "vitium", que significa "falha ou defeito", é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem. Depois de escrever tudo isso é claro e óbvio que discordo. O vício é prejudicial justamente quando a pessoa é viciada em algo ruim, caso contrário não. O que tem de tão ruim ser viciada em MPB, por exemplo? Não tem nada! Que esse vício todo se espalhe!